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Projeto de Lei para ‘regulamentar’ o uso da Internet no Brasil está
gerando muita polêmica por exigir cadastro e permitir o rastreamento
dos internautas. Diante da reação de vários setores da sociedade - a
maioria negativa -, a proposta foi retirada da pauta da Comissão de
Legislação de Justiça do Senado menos de 24 horas antes de votação.
Agora, está prevista uma audiência pública para discutir melhor o
assunto. Entenda o que prevê o projeto criado pelo senador mineiro
Eduardo Azeredo (PSDB) e o que pensam advogados, especialistas em TI e
em segurança na Web.
Polêmica na Web
Susy Laguárdia
Repórter
Nas últimas semanas um assunto polêmico tomou conta da comunidade de
internautas no Brasil inteiro. O Projeto de Lei 89/2003 que seria
votado na quarta-feira última pela Comissão de Legislação e Justiça do
Senado Federal, que prevê, entre outras medidas, a obrigatoriedade de
todos os usuários da Internet no país se cadastrarem ao assinarem um
serviço de provimento de acesso.
Porém, as regras previstas geraram polêmica tão grande que o projeto
foi retirado da pauta de votação e não tem previsão de quando retornará
para apreciação da comissão.
Tramitando desde 2000 por meio de outras propostas apresentadas,
O texto final a ser apreciado pela CLJ é um substitutivo, criado pelo
senador mineiro Eduardo Azeredo (PSDB), sobre outros projetos
apresentados anteriormente.
E os pontos mais polêmicos foram inseridos justamente inseridos pelo
senador mineiro, por exemplo, o preenchimento de um cadastro pelo
internauta com nome completo, endereço, número de telefone, CPF e RG,
na hora de contratar um provedor de Internet. O internauta ou provedor
que se recusarem a cumprir a determinação do cadastro, prevê o projeto,
podem ser condenados. A pena varia de dois a quatro anos de reclusão.
Segundo o consultor Jurídico do Ministério das Telecomunicações e
membro do Comitê Gestor da Internet do Brasil, Marcelo Bechara, esse e
outros itens ferem os direitos de liberdade à Internet, o que teria
justificado os movimentos contrários ao projeto na semana passada,
promovidos pela Associação de Provedores e outros grupos.
Bechara destaca que a idéia de criar uma lei que regulamente o uso da
Web no brasil é muito boa, mas, acha que os novos parágrafos
contaminaram o projeto. “Na minha opinião, como está, a lei seria
prejudicial, porém, quem tem que ver isso é a sociedade”, completa.
E depois de tanta confusão, é isso que será feito. Está prevista uma
audiência pública para discutir, e quem sabe, modificar alguns pontos
da proposta. “O senador Azeredo teve a humildade de retirar a proposta
de pauta e propor que a discussão seja ampliada”, elogia.
Azeredo acusa ‘falta de informação’
Redator do substitutivo, Azeredo afirma que a polêmica foi gerada
devido às informações falsas que foram espalhadas. “O cadastro, por
exemplo, que seria feito apenas uma vez e não sempre que o internauta
fosse enviar algum e-mail ou compartilhamento de arquivo, já acontece,
mas não é obrigatório”, esclarece. Sobre o arquivamento de informações
sobre o histórico de navegação, o senador defende que esses dados
poderiam subsidiar uma possível investigação, caso a pessoa se
envolvesse em algum crime na Web.
Azeredo lembra que outros países já estão tomando medidas para combater
os crimes virtuais e que esse projeto se baseia no tratado que será
assinado em Budapeste por 43 países, e que até os Estados Unidos já
estariam desenvolvendo propostas dentro do país para se protegerem
contra esse tipo de crime. Portanto, o medo de uma possível migração de
usuários de provedores brasileiros para outros internacionais seria
provisório.
Para o senador, “o projeto não fere a privacidade, não prejudica a
inclusão social e não burocratiza a Internet”, como foi alegado por
todos que protestaram na semana passada. Ele desmente ainda a
informação de que seria feito rastreamento dos sites acessados. “Seria
uma tarefa gigantesca rastrear e guardar os acessos de todos os
usuários de Internet do Brasil‘, frisa.
O senador Delcídio Amaral (PT-MS) autor de uma das primeiras versões do
projeto apresentadas, também defende um debate mais amplo sobre o
assunto para então se decidir por uma lei que coiba os crimes
eletrônicos. Ele prefere não arriscar se a proposta será ou não
aprovada no formato atual, mas diz que já teve grande mérito, pois
trouxe à tona a discussão e incluiu o país em um assunto que deveria
preocupar o mundo inteiro.
Especialista diz que proposta é inviável
O ex-dirigente da ICANN, sigla em inglês da Corporação para Atribuição
de Nomes e Números na Internet (Internet Corporation for Assigned and
Numbers), Ivan Moura Campos, afirma que esse projeto é tecnicamente
impossível.
Ex-professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), consultor
do único escritório do Google na América Latina e considerado uma
sumidade quando o assunto é Internet, campos acredita que, mesmo que
aprovado, o projeto encontrará dificuldades técnicas e práticas para
sair do papel. “Vão surgir mais de mil formas de burlar o sistema de
identificação. Não será esse projeto que eliminará os crimes na Web”,
avalia.
Para ele, não faz sentido exigir a alguém que se identifique antes de
passar um fax ou usar o telefone. “As autoridades não percebem que
existem outras formas graves de se cometerem crimes, e não apenas pela
Internet”‘, argumenta. Para ele a lei não resistiria dois finais de
semana.
Segundo Campos, combater crimes na Web é um trabalho para o Serviço de
Inteligência da Polícia. E que infelizmente isso é uma coisa que temos
que conviver. Para ele, em todas as tecnologias existe uma forma de
praticar atos ilegais, e a solução para isso só viria com a educação da
sociedade. E mesmo isso não acabaria com o crime. “Esse tipo de coisa
faz parte do mundo. Isso é um problema do ser humano”, afirma.
O professor explica que, em geral, é um desafio muito grande legislar
sobre um assunto de conteúdo tecnológico. ‘Existem muitos projetos de
boas intenções, mas sem viabilidade de funcionamento‘, conta. Ele
acredita que a única coisa que inibe ou ameniza os crimes virtuais são
as investigações e a ação da polícia. De acordo com Ivan Campos,
técnicas de investigação tem que se desenvolver à medida que os hackers
e krackers se desenvolvem. ‘É impossível fazer o controle‘, justifica.
Para ele esse é um processo de evolução constante.
Para advogado, idéia fere a Constituição
O advogado Alexandre Atheniense, especialista em crimes na Internet, vê
o projeto como uma invasão de privacidade, crime previsto do artigo 5º
da Constituição. Além disso, para ele, essa não será uma solução 100%
segura para eliminar os cibercrimes. “A lei será apenas para provedores
brasileiros, o que não me impediria de entrar em um provedor de outro
país e enviar e-mail sem identificação”, explica o advogado.
Outro ponto da proposta que está gerando muitas críticas é a pena
prevista para o acesso sem identificação prévia, que varia de dois à
quatro anos de reclusão, tanto para o usuário, quanto para o provedor.
‘Isso é um absurdo‘, enfatiza Atheniense. ‘Essa pena é muito pesada.
Como se alguém que estivesse andando na rua sem a carteira de
identidade fosse preso por dois ou quatro anos‘, argumenta. ‘A Internet
é uma tecnologia que favorece o anonimato. Seria um abuso de invasão de
privacidade.‘
O advogado acredita que a lei até poderia ser aprovada, mas com
emendas. Ele avalia como positivos alguns itens do projeto, por
exemplo, a obrigatoriedade dos provedores de manter informações sobre
os registros eletrônicos e, com isso, facilitaria possíveis
investigações.
Há quem defenda maior controle
A obrigatoriedade de cadastramento, ponto mais criticado do projeto, é
também o que muitos empresários defendem. Para Orácio Kuradomi,
ex-consultor de tecnologia da Microsoft e dono da Uniconet, empresa de
gerenciamento de rede, esse é a maior vantagem da proposta.
Kuradomi acredita que o cadastramento, se for fiscalizado, eliminaria a
criação de sites criminosos, como os de pedofilia, venda de produtos
proibidos, etc. “Hoje, por exemplo, se eu quiser abrir um site para
vender produtos inexistentes, eu consigo. É só contratar um provedor,
pagar em média R$ 9,90 por mês e vender o que eu quiser. A pessoa
compraria, mandaria os dados, como os de cartão de crédito e CPF, e não
receberia o produto. Com essa lei essa prática ficaria mais difícil‘,
ilustra.
Uma das soluções, na opinião do empresário seria a obrigatoriedade do
Internet Protocol (IP) Fixo em residências, para facilitar o
rastreamento de crimes. Como o IP é variável, é praticamente impossível
localizar alguém que possa ter cometido alguma ilegalidade através da
web. Kuradomi reconhece que o projeto ainda tem que passar por algumas
melhorias, mas que, no geral, ele traria mais benefícios do que
problemas. ‘Toda mudança gera conflito, mas se ela é boa, deve ser
aplicada‘, defende.
Certificado digital
Márcio Nunes, diretor de Produtos e Marketing da Certisign, uma das
empresas que poderia fornecer o certificado digital para o controle dos
usuários da Web, caso a lei fosse aprovada, defende o certificado como
a maior garantia de segurança.
‘Quando pensamos em aspectos em segurança da Informação, consideramos
importante saber quem envia e quem recebe os dados ou arquivos‘,
defende. Mas ele confessa que não é fácil imaginar todo mundo
utilizando o certificado. ‘Primeiro tem que estabelecer qual é a
política de adoção e qual é o real benefício do usuário para saber
exatamente qual medida deve ser aplicada‘, explica.
Fonte - Caderno Info.com - Jornal Hoje em Dia 14/11/2006 |